*
outrora na suábia em cantos
ouviam-se hinos
em torres de pedra
o gesto de fundar
entre a carne e o perfume
uma palavra cruel sem rosto
outrora em alexandria escrevia
o vento nas muralhas
e rodava a bússola dentro do sangue
e sentia o estremecimento do sal na nuca
ars longa, vita brevis
a sentença conjurada por mãos de argila e ar
o verso em ladeiras estivais cantado
diante de brancura de lençóis
e ardência de vestidos
o poema o esteio
no pulmão coagulando o ar em torno
digo crina carne potro face greia
e ao instante o olho divide o som
enquanto eu
espero diante da porta amarela
o regresso dos incêndios
de opala ao peito com toda a luz
suspensa entre lábio e tímpano
espero e digo como o mundo me faz
cânfora cinzel lava nome
como me faz
fragmento (de um conjunto)
*
(agora) o gesto sempre inexcedível
no contorno do som
a mão é um pretexto
solilóquio de teares de azeite e peso lúbrico
dentro da sede
são um crime os nomes
alcançam o que não podem tocar
não me segredam o mais mínimo destino e
sou o desejo que constrói e
penso em cadeiras na solidão dos quartos
penso que são de quartzo os olhos
dos mortos atravessados de imagens
que são adagas e alcatrão por dentro
que são deleite multiforme e eco de odor
que são úteros frios devassados pela inclemência
dos invernos são todo o nome que nunca
se diz em penumbra de salmos
nem em inodora travessia de rios
por dentro são mãos centrífugas semeando sol
que são lavoura e colheita e
depois pólvora navegante e lunar
aspiração de dedos em perímetros balsâmicos
que são o caminho lento para a floresta
para os lagos são a sombra das aves
em dias de migração são de pó
se ouço a loucura em poços fustigando são
pele e queda e punhal
eu vejo
a medusa de olho ciclópico
o coração de basalto semeando os vedas
em sal grosso e leite materno
(agora) o gesto sempre inexcedível
no contorno do som
a mão é um pretexto
solilóquio de teares de azeite e peso lúbrico
dentro da sede
são um crime os nomes
alcançam o que não podem tocar
não me segredam o mais mínimo destino e
sou o desejo que constrói e
penso em cadeiras na solidão dos quartos
penso que são de quartzo os olhos
dos mortos atravessados de imagens
que são adagas e alcatrão por dentro
que são deleite multiforme e eco de odor
que são úteros frios devassados pela inclemência
dos invernos são todo o nome que nunca
se diz em penumbra de salmos
nem em inodora travessia de rios
por dentro são mãos centrífugas semeando sol
que são lavoura e colheita e
depois pólvora navegante e lunar
aspiração de dedos em perímetros balsâmicos
que são o caminho lento para a floresta
para os lagos são a sombra das aves
em dias de migração são de pó
se ouço a loucura em poços fustigando são
pele e queda e punhal
eu vejo
a medusa de olho ciclópico
o coração de basalto semeando os vedas
em sal grosso e leite materno
Duas histórias de incesto durante a Segunda Grande Guerra
A Estrela: VI
......................................................................
Só o repouso é capaz de indicar a rota
Herman Broch – A Morte de Virgílio
A vendedora de cerejas, esfregou os búzios conta o peito, e contou-me duas histórias sobre o incesto. Lembrei-me que numa certa altura da vida que passei no hemisfério sul em trabalho, um criador de búfalos Australiano também me tinha contado outras duas histórias sobre o incesto. Li muito sobre o tema, mas foi com Maria Puig que soube o que a palavra queria dizer. Também com ela o pratiquei pela primeira vez. Agora era diferente, estava numa favela de São Paulo, cuja dimensão era da distância do Porto a Aveiro. A primeira história que o criador de búfalos me contou foi num domingo e falava de dois tenistas que em 1802 começaram uma partida num court a 200 km de Melbourne. Havia um árbitro e uma bancada com vinte ou mais pessoas a assistir. Dez deles apoiavam o primeiro tenista, e os outros dez apoiavam o segundo: Os dois tenistas eram dois irmãos. Aqui, o criador de búfalos parou a história para pedir um copo de chá muito negro e depois continuou – Sabe, as partidas de ténis podem não ter um fim, e o árbitro teve de ir para casa dormir e os da assistência tiveram que ir à sua vida. As pessoas esqueceram-se que eles jogavam e foram criando cidades longe do court do ténis, e com o passar dos anos todos se esqueceram que ali havia um court. Ao longo do court foram crescendo as silvas. Várias vezes os céus se abriram aos tenistas, que durante a sua vida viram três eclipses completos e assistiram a duas guerras mundiais. No céu acima do court ouviam-se várias Osanas e a Austrália ia evoluindo sem se meter em grandes sarilhos. Os australianos são um povo trabalhador - Aqui o criador de búfalos calou-se, bebeu mais um bocado de chã e contou-me a segunda história que sabia sobre o incesto. A segunda era sobre uma mãe e um filho e passava-se num jacuzzi. Esqueci-me de muitos pormenores. Estava com muito sono e não prestei atenção ao fim. Com as duas histórias que a vendedora de cerejas me contou, passei a saber quatro histórias sobre o incesto. Uma delas tinha-a vivido com Maria Puig; Essa, contaria um dia a alguém que tivesse paciência para me ouvir. Era uma história me metia búzios: Tinha um final feliz, como qualquer história de incesto durante a Segunda Grande Guerra. Contou ainda que o court de ténis não se via do Google world por causa de uma nuvem que nesse dia tapou o satélite fotográfico. Um índio que se perdeu várias vezes no deserto australiano, caiu de cansaço e assim que se levantou deu várias voltas sobre si próprio até ficar tonto e cair outra vez. O lado para onde ficou caído, foi o lado que seguiu como direcção ao seu destino(1), que não sabia qual era Como ninguém sabe quem é – disse-me o criador de búfalos - Eu sei que a vontade é duas cabeças unidas, sei que ela tem uma direcção que é todos os caminhos. O Criador de búfalos começou a chorar, disse-me que também tinha uma mãe. Falou-me de um acidente. Fui levá-lo a casa. Falou-me de amor, várias vezes no caminho até casa. Deu-me as chaves e conduzi-o até à cama. Ali vi a fotografia da mãe do criador de búfalos. Antes de adormecer, ele pediu que eu me sentasse e contou-me que esse índio chegou até ao court de ténis e viu lá os dois irmãos deitados a dormir em posição fetal junto à rede, um abraçado ao outro. Tinham a boca manchada e o court estava cheia de romãs, que os espanhóis cham de granadas. Eram os frutos silvestres que os dois tenistas comiam no intervalo entre os jogos e o prazer anal. Sabe, os jogos de ténis podem não ter fim. Há coisas que não pode ter fim, mas não ter fim é evolução contínua, o jogo continuou. Mais tarde um pastor ia com o seu rebanho por uma estrada nacional. Na Austrália há muitas ovelhas que os ingleses trouxeram, e as ovelhas reproduzem-se rápido. Então o pastor uns dias ia para norte e outros dias ia para sul, mas um dia acendeu o seu cigarro e andou para oeste. Encontrou o court de ténis e viu os dois irmãos a jogarem. Ficou a ver um bocado do jogo, enquanto as ovelhas andavam por aqui e por ali. Depois o pastor acendeu outro cigarro e seguiu com as suas ovelhas atrás, até porque aquele campo à volta do court estava cheio de silvas e as ovelhas dispersavam-se para o pasto mais a norte. – Aqui o criador de búfalos pediu que lhe trouxesse um copo de chá bem negro. Quando regressei da cozinha ele já tinha adormecido. Ajeitei-lhe a almofada e tapei-o melhor. Voltei a olhar para o retrato da sua mãe. Dois dias depois parti do aeroporto de Sydney.
(1) O mesmo tinha feito São Francisco, para decidir qual o caminho na pregação.
Nuno Brito
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Só o repouso é capaz de indicar a rota
Herman Broch – A Morte de Virgílio
A vendedora de cerejas, esfregou os búzios conta o peito, e contou-me duas histórias sobre o incesto. Lembrei-me que numa certa altura da vida que passei no hemisfério sul em trabalho, um criador de búfalos Australiano também me tinha contado outras duas histórias sobre o incesto. Li muito sobre o tema, mas foi com Maria Puig que soube o que a palavra queria dizer. Também com ela o pratiquei pela primeira vez. Agora era diferente, estava numa favela de São Paulo, cuja dimensão era da distância do Porto a Aveiro. A primeira história que o criador de búfalos me contou foi num domingo e falava de dois tenistas que em 1802 começaram uma partida num court a 200 km de Melbourne. Havia um árbitro e uma bancada com vinte ou mais pessoas a assistir. Dez deles apoiavam o primeiro tenista, e os outros dez apoiavam o segundo: Os dois tenistas eram dois irmãos. Aqui, o criador de búfalos parou a história para pedir um copo de chá muito negro e depois continuou – Sabe, as partidas de ténis podem não ter um fim, e o árbitro teve de ir para casa dormir e os da assistência tiveram que ir à sua vida. As pessoas esqueceram-se que eles jogavam e foram criando cidades longe do court do ténis, e com o passar dos anos todos se esqueceram que ali havia um court. Ao longo do court foram crescendo as silvas. Várias vezes os céus se abriram aos tenistas, que durante a sua vida viram três eclipses completos e assistiram a duas guerras mundiais. No céu acima do court ouviam-se várias Osanas e a Austrália ia evoluindo sem se meter em grandes sarilhos. Os australianos são um povo trabalhador - Aqui o criador de búfalos calou-se, bebeu mais um bocado de chã e contou-me a segunda história que sabia sobre o incesto. A segunda era sobre uma mãe e um filho e passava-se num jacuzzi. Esqueci-me de muitos pormenores. Estava com muito sono e não prestei atenção ao fim. Com as duas histórias que a vendedora de cerejas me contou, passei a saber quatro histórias sobre o incesto. Uma delas tinha-a vivido com Maria Puig; Essa, contaria um dia a alguém que tivesse paciência para me ouvir. Era uma história me metia búzios: Tinha um final feliz, como qualquer história de incesto durante a Segunda Grande Guerra. Contou ainda que o court de ténis não se via do Google world por causa de uma nuvem que nesse dia tapou o satélite fotográfico. Um índio que se perdeu várias vezes no deserto australiano, caiu de cansaço e assim que se levantou deu várias voltas sobre si próprio até ficar tonto e cair outra vez. O lado para onde ficou caído, foi o lado que seguiu como direcção ao seu destino(1), que não sabia qual era Como ninguém sabe quem é – disse-me o criador de búfalos - Eu sei que a vontade é duas cabeças unidas, sei que ela tem uma direcção que é todos os caminhos. O Criador de búfalos começou a chorar, disse-me que também tinha uma mãe. Falou-me de um acidente. Fui levá-lo a casa. Falou-me de amor, várias vezes no caminho até casa. Deu-me as chaves e conduzi-o até à cama. Ali vi a fotografia da mãe do criador de búfalos. Antes de adormecer, ele pediu que eu me sentasse e contou-me que esse índio chegou até ao court de ténis e viu lá os dois irmãos deitados a dormir em posição fetal junto à rede, um abraçado ao outro. Tinham a boca manchada e o court estava cheia de romãs, que os espanhóis cham de granadas. Eram os frutos silvestres que os dois tenistas comiam no intervalo entre os jogos e o prazer anal. Sabe, os jogos de ténis podem não ter fim. Há coisas que não pode ter fim, mas não ter fim é evolução contínua, o jogo continuou. Mais tarde um pastor ia com o seu rebanho por uma estrada nacional. Na Austrália há muitas ovelhas que os ingleses trouxeram, e as ovelhas reproduzem-se rápido. Então o pastor uns dias ia para norte e outros dias ia para sul, mas um dia acendeu o seu cigarro e andou para oeste. Encontrou o court de ténis e viu os dois irmãos a jogarem. Ficou a ver um bocado do jogo, enquanto as ovelhas andavam por aqui e por ali. Depois o pastor acendeu outro cigarro e seguiu com as suas ovelhas atrás, até porque aquele campo à volta do court estava cheio de silvas e as ovelhas dispersavam-se para o pasto mais a norte. – Aqui o criador de búfalos pediu que lhe trouxesse um copo de chá bem negro. Quando regressei da cozinha ele já tinha adormecido. Ajeitei-lhe a almofada e tapei-o melhor. Voltei a olhar para o retrato da sua mãe. Dois dias depois parti do aeroporto de Sydney.
(1) O mesmo tinha feito São Francisco, para decidir qual o caminho na pregação.
Nuno Brito
O hermafrodita
5ª parte de a Estrela
Sobretudo adorei a sua respiração ofegante, e o “espera, deixa-me parar”, ao telemóvel, quando me disse que ia posar para a Playboy. Vi depois a capa. Estava de lado escondendo o membro viril. Disse-lhe que já tinha comprado esse número, e que por mais de uma vez me tinha masturbado a olhar para algumas fotografias centrais, onde ela posava com outro hermafrodita de ligas negras. Por essa altura acabava a década e ela contou-me do projecto para a novela fragmentada. Nunca mais voltaria a ouvir Maria Puig.
Sobretudo adorei a sua respiração ofegante, e o “espera, deixa-me parar”, ao telemóvel, quando me disse que ia posar para a Playboy. Vi depois a capa. Estava de lado escondendo o membro viril. Disse-lhe que já tinha comprado esse número, e que por mais de uma vez me tinha masturbado a olhar para algumas fotografias centrais, onde ela posava com outro hermafrodita de ligas negras. Por essa altura acabava a década e ela contou-me do projecto para a novela fragmentada. Nunca mais voltaria a ouvir Maria Puig.
As estrelas Suicidas de Tule
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You have to think in Casanova – “Belle Chase Hotel”
“Os segredos contam-se melhor debaixo de água.”
Foi com Maria Puig, o hermafrodita, que comecei a ouvir tango. Primeiro orquestras ligeiras, depois Gardel. Na altura, ela fazia a sua tese de mestrado sobre “Tristan Shandy”. Preparava também, em conjunto com um musicólogo e um fotógrafo, a obra “O Tango durante a Segunda Grande Guerra”. Era uma encomenda de um dos maiores grupos editoriais franceses.
No centro da sua sala havia um velho gramofone que tocava repetidamente a “Munequita de Paris”. Outras vezes “Nagasaki blues” de Mina.
Eu sentava-me no sofá e lia “What is the literature” do Sartre, ou uma revista sobre tatuagens. Ela ia mudar a agulha, eu continuava no sofá. Um dia vi no espelho do seu quarto de banho, uma frase curta, escrito a baton. Dizia só: “Um reich de leite” – A caligrafia pareceu-me sexy, e a sentença escrita muito devagar e com um pulso seguro. Não achei estranho a frase não ter verbo, não ser uma oração, mas apenas uma espécie de complemento incompleto: De quê? -Perguntei-lhe, ela sorriu e voltou a colocar a agulha no começo da música. Mostrou-me no mail algumas fotos que tinha recebido para ilustrar um dos capítulos da obra. Pessoas a dançarem em grandes salões europeus e americanos. Cadilacs com casais abraçados fora ou dentro dos carros.
Um Reich de leite?
O quê?
Como era o leite?
“ disse que era gordo”
Mostrou-me um texto seu, dividido em cinco partes. Explicou-me que fazia parte de um projecto que tinha para uma novela fragmentada.
1.Fizemos amor durante muito tempo: Eu, um homem ou uma mulher; e ela, uma mulher ou um homem. Os nossos sexos eram uma sugestão e pareciam uma corrente tropical. Não eram os orgasmos que levantavam a alma, mas o calor e a respiração – e a Munequita de Paris – no auge de um orgasmo múltiplo de uma estrela suicida com baton a mais. Éramos essa estrela reflectida no espelho barroco de um submarino .Levantei-me e abri a boneca russa, dentro estava outra boneca, abri a outra boneca, e abri outra e outra e todas as bonecas que estavam uma dentro das outras como memórias tripartidas. A última boneca abri com a boca e sei que isso o excitou. Dentro da boneca estava uma mortalha. A mortalha tinha escrito um poema de Walser. Era inédito, como qualquer acto humano. Ele enrolou nela um bocado de tabaco negro e ficou com atenção ao fumo. Disse duas ou três coisas sobre a perenidade, o gesto humano, não sei o quê sobre África. Foi até junto do gramofone e meteu a música do começo.
2. Imaginei um país neutro com todos os seus leiteiros a levarem as bilhas nos caminhos de terra. Os leiteiros a cantarem que – O seu país não se mete em confusões - Imaginei o país neutro com o seu povo trabalhador que semeia os campos de trigo e que colhe o trigo e do trigo faz farinha, e com farinha faz o pão que alimenta o povo: Dos operários aos ladrões, dos antiquários, aos guardas florestais. Imaginei todos os seus bosques recheados de prostitutas. Imaginei-as a enrolar o preservativo no toalhete. A passarem o toalhete no rabinho dos impotentes para que o seu orgasmo seja em tudo pujante e nacional. Imaginei todos os pedófilos do meu país a olharem para o mar, a verem-no masturbar-se nas pernas salgadas das meninas, em ondas-coredeirinho, que umas vezes trazem búzios e conchas pequenas. E que de vez em quando trazem estrelas e outras vezes não trazem estrelas.
3. Os funcionários internaram a rainha na ilha de Cápri. Aí a rainha chorava cal viva porque morrera o seu amigo. Uma lenda antiga dos pescadores do golfo de Nápoles explicava melhor, que na impossibilidade da rainha chorar algo líquido, as estrelas-do-mar começaram a aparecer em grande número nas praias entre Herculano e Nápoles. De manhã todos encontravam as praias cheias de estrelas-do-mar. Noutras manhãs encontravam as praias cheias de soldados. O mesmo fenómeno se passava na Normandia.
4.Eram grupos de meninos e meninas que encontravam as estrelas-do-mar, e as, viravam ao contrário para lamber a parte branca e adocicada que era o seu choro: Um liquido espesso, como o sémen dos cavalos-marinhos. Um choro que parecia leite gordo e doce com muita nata, como o leite das baleias. As meninas metiam as pontas das estrelas nos ouvidos e ouviam as histórias da Rainha internada em Cápri: Estávamos no início da guerra.
5. Era uma espécie de leite, mas não era bem leite, era segredo líquido e quente de uma rainha. O leite sabia também a outras histórias mal contadas. Porque as estrelas-do-mar sabiam muitas histórias sobre a emigração ilegal de África para as Canárias. Muitas vezes espreitavam a boca roxa, com os lábios grossos de um nigeriano inchado pela água, que se tinha deixado ir ao fundo. Mas não é isso que as faz chorar.Sabem também boas histórias sobre a guerra que contam aos meninos que as descobrem pela manhã. Uma delas, é a de um capitão de um submarino francês que em 1940 desceu ao fundo do mar do Norte para uma missão de defesa da costa. Desligou o radar e forrou o tecto do submarino com papel celofane azul celeste. Colou nele muitas estrelinhas que picotou de uma cartolina dourada. Depois de forrado o tecto do submarino, o capitão pediu que lhe metessem no seu interior um espelho grande e barroco. Dois tripulantes trouxeram-no para o espaço central. Depois os dois tripulantes embebedaram-se, o capitão ajeitou a agulha do gramofone e começou a ouvir a “Munequita de Paris”. Morreu numa espécie de guerra privada. Todos esses segredos, tornavam o choro das estrelas mais espesso, gordo e saboroso, como se fosse leite condensado: memórias de guerra que as raparigas de Cápri lambiam, ou usavam como gel no cabelo para seduzir, com o seu cabelo curto, um ou outro amigo de quem gostassem mais.
Nuno Brito
You have to think in Casanova – “Belle Chase Hotel”
“Os segredos contam-se melhor debaixo de água.”
Foi com Maria Puig, o hermafrodita, que comecei a ouvir tango. Primeiro orquestras ligeiras, depois Gardel. Na altura, ela fazia a sua tese de mestrado sobre “Tristan Shandy”. Preparava também, em conjunto com um musicólogo e um fotógrafo, a obra “O Tango durante a Segunda Grande Guerra”. Era uma encomenda de um dos maiores grupos editoriais franceses.
No centro da sua sala havia um velho gramofone que tocava repetidamente a “Munequita de Paris”. Outras vezes “Nagasaki blues” de Mina.
Eu sentava-me no sofá e lia “What is the literature” do Sartre, ou uma revista sobre tatuagens. Ela ia mudar a agulha, eu continuava no sofá. Um dia vi no espelho do seu quarto de banho, uma frase curta, escrito a baton. Dizia só: “Um reich de leite” – A caligrafia pareceu-me sexy, e a sentença escrita muito devagar e com um pulso seguro. Não achei estranho a frase não ter verbo, não ser uma oração, mas apenas uma espécie de complemento incompleto: De quê? -Perguntei-lhe, ela sorriu e voltou a colocar a agulha no começo da música. Mostrou-me no mail algumas fotos que tinha recebido para ilustrar um dos capítulos da obra. Pessoas a dançarem em grandes salões europeus e americanos. Cadilacs com casais abraçados fora ou dentro dos carros.
Um Reich de leite?
O quê?
Como era o leite?
“ disse que era gordo”
Mostrou-me um texto seu, dividido em cinco partes. Explicou-me que fazia parte de um projecto que tinha para uma novela fragmentada.
1.Fizemos amor durante muito tempo: Eu, um homem ou uma mulher; e ela, uma mulher ou um homem. Os nossos sexos eram uma sugestão e pareciam uma corrente tropical. Não eram os orgasmos que levantavam a alma, mas o calor e a respiração – e a Munequita de Paris – no auge de um orgasmo múltiplo de uma estrela suicida com baton a mais. Éramos essa estrela reflectida no espelho barroco de um submarino .Levantei-me e abri a boneca russa, dentro estava outra boneca, abri a outra boneca, e abri outra e outra e todas as bonecas que estavam uma dentro das outras como memórias tripartidas. A última boneca abri com a boca e sei que isso o excitou. Dentro da boneca estava uma mortalha. A mortalha tinha escrito um poema de Walser. Era inédito, como qualquer acto humano. Ele enrolou nela um bocado de tabaco negro e ficou com atenção ao fumo. Disse duas ou três coisas sobre a perenidade, o gesto humano, não sei o quê sobre África. Foi até junto do gramofone e meteu a música do começo.
2. Imaginei um país neutro com todos os seus leiteiros a levarem as bilhas nos caminhos de terra. Os leiteiros a cantarem que – O seu país não se mete em confusões - Imaginei o país neutro com o seu povo trabalhador que semeia os campos de trigo e que colhe o trigo e do trigo faz farinha, e com farinha faz o pão que alimenta o povo: Dos operários aos ladrões, dos antiquários, aos guardas florestais. Imaginei todos os seus bosques recheados de prostitutas. Imaginei-as a enrolar o preservativo no toalhete. A passarem o toalhete no rabinho dos impotentes para que o seu orgasmo seja em tudo pujante e nacional. Imaginei todos os pedófilos do meu país a olharem para o mar, a verem-no masturbar-se nas pernas salgadas das meninas, em ondas-coredeirinho, que umas vezes trazem búzios e conchas pequenas. E que de vez em quando trazem estrelas e outras vezes não trazem estrelas.
3. Os funcionários internaram a rainha na ilha de Cápri. Aí a rainha chorava cal viva porque morrera o seu amigo. Uma lenda antiga dos pescadores do golfo de Nápoles explicava melhor, que na impossibilidade da rainha chorar algo líquido, as estrelas-do-mar começaram a aparecer em grande número nas praias entre Herculano e Nápoles. De manhã todos encontravam as praias cheias de estrelas-do-mar. Noutras manhãs encontravam as praias cheias de soldados. O mesmo fenómeno se passava na Normandia.
4.Eram grupos de meninos e meninas que encontravam as estrelas-do-mar, e as, viravam ao contrário para lamber a parte branca e adocicada que era o seu choro: Um liquido espesso, como o sémen dos cavalos-marinhos. Um choro que parecia leite gordo e doce com muita nata, como o leite das baleias. As meninas metiam as pontas das estrelas nos ouvidos e ouviam as histórias da Rainha internada em Cápri: Estávamos no início da guerra.
5. Era uma espécie de leite, mas não era bem leite, era segredo líquido e quente de uma rainha. O leite sabia também a outras histórias mal contadas. Porque as estrelas-do-mar sabiam muitas histórias sobre a emigração ilegal de África para as Canárias. Muitas vezes espreitavam a boca roxa, com os lábios grossos de um nigeriano inchado pela água, que se tinha deixado ir ao fundo. Mas não é isso que as faz chorar.Sabem também boas histórias sobre a guerra que contam aos meninos que as descobrem pela manhã. Uma delas, é a de um capitão de um submarino francês que em 1940 desceu ao fundo do mar do Norte para uma missão de defesa da costa. Desligou o radar e forrou o tecto do submarino com papel celofane azul celeste. Colou nele muitas estrelinhas que picotou de uma cartolina dourada. Depois de forrado o tecto do submarino, o capitão pediu que lhe metessem no seu interior um espelho grande e barroco. Dois tripulantes trouxeram-no para o espaço central. Depois os dois tripulantes embebedaram-se, o capitão ajeitou a agulha do gramofone e começou a ouvir a “Munequita de Paris”. Morreu numa espécie de guerra privada. Todos esses segredos, tornavam o choro das estrelas mais espesso, gordo e saboroso, como se fosse leite condensado: memórias de guerra que as raparigas de Cápri lambiam, ou usavam como gel no cabelo para seduzir, com o seu cabelo curto, um ou outro amigo de quem gostassem mais.
Nuno Brito
Porto Kitsh
O meu coração tem um porto
E esse porto um coração.
Aqui é vivo o que era morto
E já não se faz como fazia:
Em tertúlias de cinema de autor e poesia
O que pensava, agora sente
E se mentia, já não mente.
Continuam os pregões, os palavrões,
Os engatatões e os “morcuões”
Agora ao serviço de um granito mais fundo
E cada cidadão um aldeão do mundo
Cada um, o feiticeiro e o feitiço
Cada um, um porto-coração.
Aqui todos dançam e todos dão
(Dão-se tanto!)
E é sem pranto
Que acolhem os náufragos
De tão incandescentes
Dentro do músculo
De mente em branco
Sem pontuação
Sem que a dança pare
Aqui, estes corações-porto,
- Outrora dispersos –
Reunidos pela excitação magnética
De serem um mega-porto
- Que não acolhe a indiferença e que faz toda a diferença -
Rodopiam tanto,
Entre a música e as palavras certas,
Que ficam brancos
Até tudo ficar Branco
Até tudo [rebentar, ficar leve e rarefeito].
Mas ninguém se importa
- Aqui apenas se aporta -
Porque este Porto é assim mesmo:
Longitude e latitude em mutação
Tsunami-unguento em erecção
Bailado de quartzo e feldspatos,
Poema-terramoto de magnitude desconhecida.
E, sarada a ferida,
(Que ninguém via)
É da suma importância,
(Mesmo que ninguém veja)
Que um coração-Porto ascenda das águas aos céus
Para que se levantem os véus
Para que uma Cidade
O seja.
Suzana Guimaraens
E esse porto um coração.
Aqui é vivo o que era morto
E já não se faz como fazia:
Em tertúlias de cinema de autor e poesia
O que pensava, agora sente
E se mentia, já não mente.
Continuam os pregões, os palavrões,
Os engatatões e os “morcuões”
Agora ao serviço de um granito mais fundo
E cada cidadão um aldeão do mundo
Cada um, o feiticeiro e o feitiço
Cada um, um porto-coração.
Aqui todos dançam e todos dão
(Dão-se tanto!)
E é sem pranto
Que acolhem os náufragos
De tão incandescentes
Dentro do músculo
De mente em branco
Sem pontuação
Sem que a dança pare
Aqui, estes corações-porto,
- Outrora dispersos –
Reunidos pela excitação magnética
De serem um mega-porto
- Que não acolhe a indiferença e que faz toda a diferença -
Rodopiam tanto,
Entre a música e as palavras certas,
Que ficam brancos
Até tudo ficar Branco
Até tudo [rebentar, ficar leve e rarefeito].
Mas ninguém se importa
- Aqui apenas se aporta -
Porque este Porto é assim mesmo:
Longitude e latitude em mutação
Tsunami-unguento em erecção
Bailado de quartzo e feldspatos,
Poema-terramoto de magnitude desconhecida.
E, sarada a ferida,
(Que ninguém via)
É da suma importância,
(Mesmo que ninguém veja)
Que um coração-Porto ascenda das águas aos céus
Para que se levantem os véus
Para que uma Cidade
O seja.
Suzana Guimaraens
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